Artigo - Jean-Marc Raynaud - Utopia
UTOPIA: o anjo com solas de chumbo
Jean-Marc Raynaud
É freqüente, para um revolucionário, fazer-se taxar de utopista, idealista, doce sonhador ou iluminado. Quando se procura destruir um sistema social que mistifica o intolerável num ritmo de crescimento constante, quando se fala em extirpar para sempre as raízes da exploração e da opressão do homem pelo homem, e quando se propõe reconstruir um novo mundo sobre as cinzas do antigo, lança-se a dúvida nos espíritos, pois se toca nos problemas de fundo. Assim, também, ao invés de cruzarem suas espadas com as nossas, numerosos são aqueles que preferem fugir ao debate, jogando em nossas faces a eti¬queta “infame” de utopistas. É muito mais simples.
O senhor-todo-mundo, teu vizinho, teu colega ou teu bofe, não te dirá jamais que eles são contra a liberdade, a igualdade, o apoio mútuo, a gestão direta, o federalismo... Não, eles são firmes partidários destas idéias. Simples¬mente, pensam que são coisas impossíveis de realizar-se, e é com compaixão e comiseração que acolherão teus propósitos.
E é ainda assim que, sobre os mesmos temas, os reformistas com olhares melífluos explicar-te-ão com a mão sobre o coração e a voz trêmula, que é necessário sonhar, mas que alguns acres em purgatório social-comunista valem mais que centenas de milhares de hectares em utopia.
É assim, enfim, que os cosmonautas da galáxia Marx e todos os “camaradas” da revolução demonstrar-te-ão esmagando-te em desprezo com suas certezas pseudo-científicas, extraídas das prateleiras pálidas dos supermercados do fingimento, que revolução consiste — o materialismo histórico exige — em adiar para amanhã o que se pode fazer hoje, e fazer três quilômetros em marcha-ré antes de se atingir o ponto a que se propõe e que está... dez metros à frente. Esses caras, sobretudo esses caras, tentarão incessantemente fazer com que culpabilizes teu desejo por um mundo radicalmente diferente e tua vontade feroz de mudar as coisas e a vida. Assim, com as nádegas cerradas, o olhar zebrado de arames farpados, o sorriso inchado de ironia, a testa empolada de suficiência obtusa, e seus eternos óculos escuros sobre aquilo onde deveria estar a inteligência, eles te injuriarão de epítetos de todos os tipos, estilo irresponsável, pequeno-burguês, reacionário, humanista, aliado objetivo do poder, do grande capital, da direita, da CIA, da polícia secreta marciana... Para eles, serás aquele que não entende nada da dialética. Um idealista! A “enGULAGar” ou psiquiatrizar com toda urgência!
Nestas condições, desde sempre, ou quase, os revolucionários, todos estes que trazem um mundo novo em seus corações e que procuram fazê-lo passar com sucesso no teste da realidade, tentam responder antecipadamente ao anátema. Tanto no plano teórico quanto no plano prático, eles se esforçam para provar a viabilidade de seus projetos, e cada vez que se apresenta a ocasião, sobressaem com firmeza da utopia e do idealismo. Enfim, sem negar entretanto a necessidade do sonho e a importância da antecipação do futuro, eles tentam provar que suas propostas pertencem inteiramente ao universo do possível e que por via das dúvidas, estão na ordem-do-dia, do presente.
Como se vê, numerosos são aqueles que se esforçam para precipitar a revolução nos braços da utopia, e este é um combate permanente, o de opor-se a estas manobras. Assim também, é com certa surpresa que se pode constatar que, desde há alguns anos, um certo número de cães loucos da revolução, ora se dizem adeptos da utopia, ora tentam reabilitá-la.
Para sermos realistas, peçamos o impossível
De fato, seus procedimentos são bem fáceis de se entender. Para eles, a essência daqueles que acusam os revolucionários de utopia, o ser profundo, o senhor-todo-mundo, reformistas e policiais da mudança, é antes de tudo sua recusa de pensar o porvir e sua incapacidade de imaginar o futuro. Assim, como a utopia possui uma incontestável dimensão de sonho e de antecipação do futuro, estes camaradas vêem na utopia um progresso certo (seguro) em relação à miséria das tropas inumeráveis de todos os gestionários do presente. E ora se mostram adeptos da utopia, ora tentam reabilitá-la. E, em seguida, digamos claramente, retomam por sua conta os insultos ao adversário, enfeitam-se, servem-se de estandarte, parecendo um pouco provocador, e a provocação, no pequeno mundo da revolta, mantém-se muito bem.
Evidentemente, se a utopia não fosse outra coisa senão a erupção da imaginação, revolta contra o intolerável e desejo de reconstruir inteiramente o edifício carcomido do velho mundo, poder-se-ia aprovar esta atitude de reabilitação. Melhor, seria preciso ser parte ativa. Mas — e há um mas de peso — a utopia não é somente isto.
Sobre a verdadeira natureza da utopia
A utopia, contrariamente ao que pensam certas pessoas, não é somente esta propensão a sonhar com o futuro bem elevado que lhe atribui o homem da rua. É também outra coisa. Uma vontade imbecil de parar no tempo. Impedir a história. Colocar a vida numa redoma. Uma recusa clara e nítida da liberdade do indivíduo. Uma afirmação da mesma forma clara e nítida da primazia do coletivo sobre o pessoal. Uma apologia da hierarquia. Um hino ao Estado e, afinal de contas, uma ode ao totalitarismo.
E tudo isto se encontra no pensamento utopista de todos os tempos. Platão, em A República e as Leis, foi aquele que abriu o baile. Depois houve Aristófanes com sua Assembléia de Mulheres. Phaleas de Calcedônia que preconizava uma cidade igualitária e igualiza¬dora; Ovídio e suas Metamorfoses; Virgílio e sua IVª Écloga; Thomas Morus, que foi a origem do termo utopia (que significa, em nenhum lugar) e seu Utopia; Erasmo e seu Elogio da Loucura; Leão Batista e seu De re aedificatoria; Campanella e sua Cidade do Sol; Francis Bacon e sua Nova Atlântida; Hobbes e seu Leviatã; Fénelon e seu Telêmaco; Fontenelle e sua República dos Filó¬sofos; Restif de la Bretonne e suas Gynographes, sua Andrographe e seu Testmographe; Robert Owen, Wilhelm Weitling; Fourier e seu Novo Mundo Amoroso; Saint-Simon e seu Jardim do Éden; Etienne Cabet e sua Viagem a Icária; William Morris...
E em todos esses autores, em todas as “experiências” que eles puderam suscitar em vida ou após suas mortes, sempre o mesmo discurso. Uma recusa da sociedade do momento. Uma recusa de toda tentativa, visando somente a reformá-la. A vontade de destruir tudo para reconstruir sobre novas bases. Mas também um igualitarismo de fachada. Uma hierarquia de fato dominada mais freqüentemente pelos filósofos e pelos cientistas. Uma negação do indivíduo. A afirmação da superioridade e do reino exclusivo do coletivo. A codificação burocrática da vida individual e social. O papel central do Estado, de seus funcionários e de sua violência institucionalizada. A pretensão à perfeição. O desejo imbecil de parar o tempo, pois, é bem evidente, uma sociedade perfeita não tem mais necessidade de evoluir, transformar-se, modificar-se ou revolucionar-se.
A utopia é também, e sobretudo, tudo isto, e é dramático ignorar estas coisas. É por essa razão que é perigoso brincar com as ambigüidades. Na essência, a utopia é totalitária, e a revolução, libertária. Tentar uni-las ou bancar os intrometidos, os alcoviteiros, é estúpido e não contribui em nada para fazer avançar o debate sobre a maneira de destruir o mais rápido possível o velho mundo para reconstruir um novo.
Os espaços infinitos do imaginário subversivo
Ser revolucionário, é sempre bom repetir, é ser capaz, inicialmente, de analisar o presente e o passado. Deduzir desta análise a necessidade de uma ruptura revolucionária e de uma destruição da antiga ordem e do conjunto de suas bases. É imaginar o futuro, um futuro livre de tudo aquilo que está na origem do intolerável do momento. E é tomar o presente no peito e na raça para fazer-lhe transpor o passo ao futuro.
Mas não é substituir um intolerável por um outro intolerável. Um siste¬ma de exploração e opressão por um outro sistema de exploração e opressão. Um Estado burguês por um Estado pseudo-operário. Uma burguesia privada por uma burguesia de Estado..., e, ainda menos, substituir uma merda por uma merda ainda pior, o totalitarismo.
Em conseqüência, nós não temos nada a ganhar em nos mostrar simpáticos ou esboçar um flerte com a utopia. O único ponto comum que temos com ela é o desejo de destruir tudo para tudo reconstruir, e este sentimento da necessidade de começar a partir de agora a pensar e a viver o futuro. Todavia, pára aí. Em seguida, divergimos fundamentalmente. A utopia quer parar o tempo. Nós queremos que o tempo nunca pare. A utopia quer limitar o espaço (o espaço e a arquitetura são planificados estupidamente). Nós queremos que o espaço seja móvel. A utopia quer a hierarquia, o Estado, o totalitarismo. Nós queremos a igualdade, a livre federação dos indivíduos e dos grupos humanos, a liberdade...
Então, que as coisas sejam claras! Contrariamente ao senhor-todo-mundo, aos reformistas e aos vampiros da revolução, nós incluímos o sonho nos nossos corações, nossa imaginação é explosiva. Mas não temos necessidade, entretanto, de marchar ao passo cadenciado da utopia.
A utopia é um anjo com solas de chumbo. Fascinante, mas completamente psicopata.
O imaginário subversivo, o qual nós reivindicamos, é de uma outra espécie. Daquela da esperança. De uma esperança sem nenhum limite.
Le Monde Libertaire, n° 474, de fevereiro de 1983.
Tradução Plínio Augusto Coêlho
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